16/09/19

Cidadania e Fé - Mordomos da Terra - por João Beltrão Filho*



A partir das décadas de 60 e 70 do século passado, vários ambientalistas associaram a crise ecológica mundial à cosmovisão judaico-cristã. Segundo eles, essa tradição religiosa foi quem teria separado o homem da natureza (dualismo). Em contraste com o paganismo e sua extrema reverência às árvores, fontes, rios, montanhas e animais, a religião judaico-cristã colocou toda a natureza a serviço do ser humano, podendo ele exercer pleno e indiscriminado “domínio” sobre toda a criação, conforme Gênesis 1:26 (SILVA, Elias Gomes da. “Religiosidade e meio ambiente: das críticas dos ambientalistas à construção de uma ecoteologia”. Revista Eletrônica Espaço Teológico, vol. 4, n. 6, jun-dez/2010, p. 132-140).

Não podemos dizer que essa crítica seria apenas fruto de uma má vontade em relação à crença judaico-cristã, visto que, infelizmente, há registros de que muitos dos seus adeptos apoiaram o abuso dos recursos naturais e nunca desenvolveram certa sensibilidade ecológica exatamente a partir de sua interpretação de Gênesis 1:26. Já outros, por entenderem que tudo terá um fim em algum momento futuro, quando os fiéis seguidores de Deus deixarão para trás este mundo e serão levados para um lugar chamado céu, nunca se interessaram seriamente por temas ligados ao cuidado da natureza.

Mas será que a religião da Bíblia merece as críticas daqueles ambientalistas ou dá base a um domínio abusivo da natureza ou certa indiferença com a sua conservação?

A resposta é negativa. Uma leitura honesta do texto bíblico evitaria tanto o equívoco dos críticos, quanto de muitos cristãos.

A Bíblia diz que Deus criou e é o senhor do mundo (Gênesis 1:1; Salmo 24:1). A Bíblia também diz que, quando da criação do ser humano, Deus o fez à sua imagem e semelhança e o colocou para exercer domínio sobre o resto dos seres criados. Além disso, tudo o que surgiu da palavra do criador era “bom” (Gênesis 1:3-28), ou seja, toda a criação era perfeita.

O “domínio” concedido ao ser humano foi uma incumbência definida nesse contexto de pleno equilíbrio e harmonia entre o criador e suas criaturas. O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, portanto diferenciado em relação aos demais seres vivos, deveria agir conforme essa imagem, isto é, com inteligência, criatividade e responsabilidade. O relato de Gênesis 2:15 deixa isso mais evidente, ao descrever o ser humano sendo colocado no Jardim do Éden “para o cultivar e o guardar”.

Como observou John Stott, o domínio de que fala o Gênesis trata-se de um domínio cooperativo, significando que a intervenção humana se limitaria a cooperar com os processos biológicos, químicos e físicos já presentes na natureza. Também se trata de um domínio delegado e responsável, pois Deus colocou sobre os ombros dos seres humanos o cuidado da criação, devendo agir como administradores ou zeladores. Em outras palavras, o plano original de Deus foi nos colocar como mordomos da Terra (Os cristãos e os desafios contemporâneos. Viçosa: Ultimato, 2014, p. 154-160).

Como exercem uma mordomia sobre o resto da criação, os seres humanos não estão livres para dispor da natureza como bem lhes convier. Sua posição de meros administradores impõe a obrigação de prestar contas ao criador do mandato que dele receberam.

Tudo isso está muito longe de um “domínio” que implique destruição, insensibilidade ambiental e exploração abusiva dos recursos naturais. Diferentemente do que alardeiam os críticos, a crise ecológica pela qual passa o nosso planeta não tem como fundamento ideológico a crença no relato bíblico da criação do ser humano, mas vem precisamente de um desvio de tudo aquilo que foi descrito nesse mesmo relato, desvio este, por sinal, explicado no próprio Gênesis, capítulo 3, pelo qual, ao dar as costas ao criador, o ser humano passou a tirar seu sustento da terra com muito esforço, a lutar contra “espinhos e ervas daninhas” e, ao final, tornar ao pó. Todas as coisas criadas perderam sua perfeição e harmonia original. A relação entre o ser humano e a natureza foi profundamente alterada e a morte passou a ser o destino de todos.

E não é só isso.

Paulo afirma na sua carta aos cristãos de Roma, cap. 8, que toda a criação – que hoje geme e agoniza – aguarda ser renovada e restaurada. Se é certo que essa nova criação apenas será plena quando Deus fizer “novos céus e nova terra”, como diz o Apocalipse, é igualmente certo que os cristãos, que se dizem renovados, não precisam esperar a atuação final de Deus. É sua missão no presente antecipar a renovação de todas as coisas, já atuando como o criador agirá no futuro, exercendo livremente “uma paixão cristã pelo trabalho ecológico” (WRIGHT, Nelson Thomas. Surpreendido pelas Escrituras: questões atuais desafiadoras. Viçosa: Ultimato, 2015, p. 99).  

Se as nossas crenças moldam nossa percepção de nós mesmos e do mundo, um resgate da história bíblica da criação no seu devido contexto e a combinação – plenamente possível – entre escatologia e ecologia constituem instrumentos valiosos de conscientização e de motivação para o trabalho em defesa da ordem criada e utilização responsável dos recursos naturais.

João Alfredo Beltrão Filho -  é graduado em Bacharelado em Direito pela Associação de Ensino Superior de Olinda (1999) e mestrado em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco (2010). Atualmente é professor assistente da Associação Caruaruense de Ensino Superior. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Processual Civil.  Coordenador do Fórum Regional de Liberdade Religiosa para a Associação Pernambucana Central da Igreja Adventista do Sétimo Dia (Forlir-APeC).



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