23/09/19

Cidadania e Fé - A FÉ CRISTÃ E AS DOENÇAS DA ALMA - por Kézia Lyra*



             A campanha do setembro amarelo[2] chama a atenção para uma doença aparentemente invisível: a depressão. Em geral, ela se caracteriza por um estado de tristeza e melancolia profundas que, muitas vezes, pode levar a pessoa doente a atitudes extremas e perigosas. A pessoa depressiva se vê numa condição de apatia e desânimo que parecem insuperáveis. A família e os amigos se descobrem despreparados para lidar com o problema; a desinformação e o preconceito acabam criando situações difíceis e preocupantes que contribuem para postergar ainda mais o tratamento da doença e a solução para um problema complexo e delicado que tem sido cada vez mais percebido na sociedade dos nossos dias.
            Mas é fato que a depressão não é algo novo. Apesar de não utilizar especificamente essa moderna nomenclatura, o abatimento e a tristeza da alma encontram inúmeros relatos nas Escrituras, como, por exemplo, depreende-se do capítulo 42, versículo 11, do livro dos Salmos que assim diz: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim?” Ou, como se nota no Novo Testamento, cujo livro de Mateus (26:38) relata que, momentos antes de ser traído por Judas, estando Jesus no Getsêmani com Pedro e dois filhos de Zebedeu, o Filho de Deus começou a entristecer-se e a angustiar-se e lhes disse: “A minha alma está profundamente triste até a morte”.
            Como se vê, a palavra de Deus evidencia que as dores humanas são conhecidas do Senhor. Cristo veio como homem e por isso mesmo conhece nossos mares revoltos, por isso é possível enxergar na fé poderoso auxílio para o renovo da alma.
            Ora, é bem verdade que a depressão e o sofrimento costumam isolar o aflito. O profeta Elias queixou-se da solidão: “só eu fiquei” (1Re 19.10 e 14). Jó, o “pai da paciência”, foi desamparado por parentes e amigos na ocasião em que experimentou a dor imensurável da perda de seus filhos, de sua saúde e de seus bens (Jó 19.14).
            A solidão nos coloca diante de nossos medos, questionamentos e incertezas. Mas, no momento de grande aflição, Jesus escolheu ladear-se de seus amigos mais íntimos e que compreendiam seu sofrimento e a fé nos ensina que a comunhão entre verdadeiros irmãos é instrumento disponibilizado por Deus para tratar o coração condoído.

Quando nossa perspectiva está turva e obscura, necessitamos ser guiados pelos olhos de quem nos ama e está enxergando melhor. Quando a única coisa que nosso coração nos diz é negativa e desesperadora, carecemos daqueles que nos falam palavras de esperança. Amizades não são apenas preciosas (cf. Pv 17.17), mas necessárias nesses instantes. Jesus, mesmo sendo o Filho de Deus, não abriu mão desse benefício em seu momento de angústia.[3]

            Além do isolamento, é comum que o depressivo se feche em copas e confine suas angústias dentro de si, seja por não confiar em alguém ou por temer não ser compreendido ou respeitado. Mas a fé nos ensina que, ao desabafar com seus discípulos sobre os sentimentos profundos que sentia naquele instante, Cristo evidenciou a necessidade de abrirmos o coração e expressarmos nossa dor com os que nos rodeiam, ainda que eles pouco possam, nada queiram ou saibam fazer. Curiosamente, Pedro estava com Cristo, mas o negaria momentos depois e Jesus sabia disso, o que não foi capaz de silenciar o Filho de Deus, nem de despertar-lhe receio quanto à sua reputação, mesmo sendo ele Mestre e Senhor. E não se tratou de um simples desabafo, pois o Salvador pediu a intercessão e a participação dos amigos em sua luta ao dizer: “ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26.38), corroborando o que nos ensina Romanos 12:15, ao afirmar: “Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram”.
            O relato bíblico nos ensina ainda, que Jesus se coloca humildemente na condição de servo, quando clama: “Meu Pai, se possível, passa de mim este cálice!” (Mt 26.39). Como se evidencia, o Mestre reforça que a tristeza, a angústia e o abatimento nos colocam frente a frente com nossas limitações humanas e revelam nossa necessidade de submissão diante daquele que é infinitamente maior que todos nós; mostra ainda, que nossos desejos sinceros podem ser humildemente derramados no altar do Senhor, pois Ele não é indiferente aos sentimentos e problemas que vivenciamos. A fé nos dá a certeza de que Deus está atento (Hb 10.22). A medicina esbarra frequentemente nos limites humanos, a depressão é celeiro dos sofrimentos terrenos e não há aqueles que não enfrentam dores nessa vida, mas o Redentor nos ensinou que, em nossa angústia, podemos recorrer ao Deus da vida.
            É certo ainda, que Cristo se submete à sabedoria e à soberania de Deus ao afirmar: “Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26.39). Jesus Cristo reconhece que, para Deus, em tudo há um propósito, por isso é preciso entendermos que não se pode pensar na vida tão somente a partir das circunstâncias imediatas a que estamos submetidos. Jesus lidou com sua aflição e angústia e suportou a cruz, mas, a despeito de tudo o que sofreu, submeteu-se a Deus, herdou a coroa da vida e está assentado à destra de Deus Pai.
            A depressão frequentemente impõe à pessoa deparar-se repetidamente com o cenário deletério da dor em que está submerso, como se dele não pudesse sair ou desvencilhar-se, mas Cristo enfrentou a dor e ensinou que é necessário lutar para entender que, além do momento presente, há vida a suplantar a desesperança e a fé pode ser o elemento fundamental a possibilitar a superação desse grave problema e o reencontro saudável do indivíduo com sua alegria de ser e de viver.
             

[1] Texto inspirado em Mensagem do Rev. Valdeci Santos, da IPB. SANTOS, Valdeci. Como Jesus nos Ensina a Lutar contra a Depressão? https://www.ipb.org.br/informativo/como-jesus-ensina-a-lutar-contra-a-depressao-4258. Acesso em 10 de setembro de 2019.
[2] Centro de Valorização da Vida. Disponível em https://www.cvv.org.br/ Acesso em 10 de setembro de 2019. Disque 188.
[3] SANTOS, Valdeci. Como Jesus nos Ensina a Lutar contra a Depressão? https://www.ipb.org.br/informativo/como-jesus-ensina-a-lutar-contra-a-depressao-4258. Acesso em 10 de setembro de 2019.

Kézia Milka Lyra de Oliveira - professora e graduada em Direito (ASCES/UNITA) e em Letras (FAFICA); especialista em Direito Processual, integrante do Programa de extensão Adoção Jurídica de Cidadãos Presos da ASCES/UNITA; Mestranda em Direito pela UNICAP e Pós-graduanda (Especialização) Internacional em Direitos Humanos Fundamentais pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA/RS), em cooperação com a Associação Nacional de Juristas Evangélicos (ANAJURE), com o Ius Gentium Conimbrigae/Centro de Direitos Humanos da Universidade de Coimbra e com o Oxford Centre for Christianity and Culture/Regent's Park College da University of Oxford. É ex-Delegada de Polícia Civil (AL).



6 comentários:

Unknown disse...

Maravilhoso!

Kézia Lyra disse...

Obrigada pelo comentário!

Unknown disse...

Parabéns a senhora é muito inteligente linda

Kézia Lyra disse...

Obrigada!

Katia Andrade disse...

Excelente texto professora sábias palavras, que a Sra seja o canal de conhecimento para aqueles q ainda não sabem e não entendem o q é a depressão na vida de alguém. Que não só este mês de campanha do setembro AMARELO, mas em todo momento as pessoas se conscientizem q depressão é coisa séria não é frescura. Parabéns pelo belo trabalho. Ainda quero ler um livro seu. Sou sua fã q Deus lhe abençoe e ilumine sempre beijos.

Kézia Lyra disse...

Obrigada por suas palavras tão preciosas e por tê-la como leitora!