13/05/18

À sepultura de um escravo - Bernardo Guimarães


    Também do escravo a humilde sepultura
    Um gemido merece de saudade:
    Uma lágrima só corra sobre ela
    De compaixão ao menos....
    Filho da África, enfim livre dos ferros
    Tu dormes sossegado o eterno sono
    Debaixo dessa terra que regaste
    De prantos e suores.

    Certo, mais doce te seria agora
    Jazer no meio lá dos teus desertos
    À sombra da palmeira, não faltara
    Piedoso orvalho de saudosos olhos
    Que te regasse a campa;
    Lá muita vez, em noites d'alva lua,
    Canção chorosa, que ao tanger monótono
    De rude lira teus irmãos entoam,
    Teus manes acordara:
    Mas aqui - tu aí jazes como a folha
    Que caiu na poeira do caminho,
    Calcada sob os pés indiferentes
    Do viajor que passa.

    Porém que importa - se repouso achaste,
    Que em vão buscavas neste vale escuro,
    Fértil de pranto e dores;
    Que importa - se não há sobre esta terra
    Para o infeliz asilo sossegado?
    A terra é só do rico e poderoso,
    E desses idolos que a fortuna incensa,
    E que, ébrios de orgulho,
    Passam, sem ver que co 'as velozes rodas
    Seu carro d'ouro esmaga um mendigante
    No lodo do caminho !...
    Mas o céu é daquele que na vida
    Sob o peso da cruz passa gemendo;
    É de quem sobre as chagas do inditoso
    Derrama o doce bálsamo das lágrimas;
    E do órfão infeliz, do ancião pesado,
    Que da indigência no bordão se arrima;
    do pobre cativo, que em trabalhos
    No rude afã exala o alento extremo;
    — O céu é da inocência e da virtude,
    O céu é do infortúnio.

    Repousa agora em paz, fiel escravo,
    Que na campa quebraste os ferros teus,
    No seio dessa terra que regaste
    De prantos e suores.
    E vós, que vindes visitar da morte
    O lúgubre aposento,
    Deixai cair ao menos uma lágrima
    De compaixão sobre essa humilde cova;
    Aí repousa a cinza do Africano,
    — O símbolo do infortúnio.

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