Origem do termo Festa Junina

junho 29, 2018

Seguindo a etimologia, existem duas hipóteses para a origem do termo "festa junina". A primeira explica seu surgimento em função das festividades durante o mês de junho e a relação com os santos católicos São João, São Pedro e Santo Antônio. A outra versão tem origem em países católicos da Europa e louvando apenas São João. No princípio, a festa era chamada de Joanina, trazida para o Brasil pelos portugueses durante o período colonial.

Nesta época, havia uma grande influência de elementos culturais portugueses, chineses, espanhóis e franceses. Da França veio a dança marcada, característica típica das danças nobres, influenciando as típicas quadrilhas no Brasil. A península Ibérica contribuiria com a dança de fitas, enquanto a tradição de soltar fogos de artifício viria da China, região de onde surgiu a manipulação da pólvora para a fabricação de fogos.
Falando em fogos, o ato de queimar fogueiras fazem parte da antiga tradição pagã de celebrar o solstício de verão no hemisfério norte (No hemisfério sul, é o início do inverno). A Igreja vinha se esforçando desde o século XIV para doutrinar a população da Europa Ocidental, ainda acostumada aos rituais pré-cristãos como, por exemplo, os cultos solares e lunares para uma vida agrícola próspera. A diferença entre as estações é bem explícita no chamado solstício de verão (dia com maior duração da luminosidade do sol: 21 de junho) e com solstício de inverno (dia menos beneficiado pela luz solar: 21 de dezembro), seis meses depois. Entre os mais importantes cultos, registrava-se a queima noturna de fogueiras no solstício de verão, festejando a vitória da luz e do calor sobre a escuridão e o frio. Então, a Igreja Católica adotou a queima com base nesses marcos cósmicos, levando em consideração a honra aos primos João e Jesus: O primeiro, perto do solstício de verão; O segundo, perto do solstício de inverno. Era uma maneira de dar novo significado às práticas pagãs relativas ao fogo.
A partir dos resquícios dos períodos pagãos, a fogueira foi incorporada à festa de São João Batista, louvado mesma época (principalmente na Idade Média). A celebração cristã o arcanjo Gabriel apareceu para a Virgem Maria, comunicando sua gravidez pelo Espírito Santo. Informara ainda que sua prima Isabel estava grávida de seis meses. Isabel mandou acender uma fogueira no topo de um monte para avisar à Maria sobre o nascimento de João. Os cultos à fertilidade em junho foram reproduzidos até o século X. Como a Igreja não conseguia combatê-los, decidiu cristianizá-los, instituindo dias de homenagens aos três santos no mesmo mês. A celebração católica trouxe outra visão para a fogueira pagã afirmando o antigo costume de acendê-las no começo do verão europeu.
No Nordeste, a religiosidade é uma forma peculiar de enfrentar os problemas, principalmente, os da seca, do descaso público e da violência. Na ausência do Estado, a fé tornar-se um fator da sobrevivência na terra esquecida pelos poderes humanos. Apegado com Santo Antônio, São José ou até Santa Maria, o nordestino - de forma geral - tem um santo preferido para suas orações, o que não era diferente para o rei do baião. Luiz Gonzaga era devoto de São João Batista, o mesmo que move toda essa animação nas festas juninas. Luiz compôs músicas retratando a festa popular e a fé na tríade sagrada junina. Mesmo na era dos downloads e das mensagens instantâneas, as músicas com temas juninos são obrigatórias em quadrilhas, festas, reuniões ou qualquer movimento popular temático nesse período.
São João Batista ou São João do Carneirinho (quando retratado como uma criança), filho de Zacarias e Isabel, recebera a missão de preparar o caminho para o messias. O santo é comemorado no dia 24 de junho, data do seu nascimento e lembrado no dia 29 de agosto, data provável de sua morte. É protetor dos casados, enfermos e considerado o santo mais próximo de Jesus.
Voltando à música, é importante salientar como essa religiosidade do povo nordestino esteve/está presente nas músicas de Luiz Gonzaga. São João foi sempre foi inspiração para suas melodias e letras. O fato de decantar o santo e a festividade como reverência e devoção, fortaleceu as festas juninas e a divulgação do santo. Esse fato foi essencial na carreira de Luiz, dando ao baião e à própria figura do cantador/cancioneiro a imediata sintonia entre fé, folclore, música e celebração popular.
É inegável o papel de São João na economia e cultura do Nordeste. Cidades, bairros, residências e ruas louvam o período com alegria, se vestindo de coloridas bandeiras e acendendo suas fogueiras. Junto com tudo isso, o toque gastronômico nas comidas típicas à base de milho, os tiros dos bacamarteiros, as bandas de pífanos, as batalhas das quadrilhas e os ritmos característicos da obra do rei como forró, baião e xaxado, estão sempre presentes, apesar da deturpação da festa por alguns empresários oportunistas e bandas/grupos caça-níquéis, sem um mínimo de criatividade ou respeito aos que realmente levaram/levam o Nordeste a sério, através de suas canções, poesias e repentes.
Explica-se a religiosidade nas músicas de Luiz pelos caracteres que carrega o homem nordestino da região sertaneja. Todos tem um "santo de cabeça". Seguindo essa risca, não poderia ser diferente com Gonzaga. Dentro de casa, viu a devoção misturar-se com música, dando uma forte contribuição na formação do seu talento. Enquanto o velho Januário arrumava as sanfonas quebradas, Dona Santana cantava as novenas do início do mês mariano até o fim das festas juninas. Mesmo sem saber ler, cantava em latim. Luiz juntava a poesia à reza e o canto de fé à poesia. Músicas como "Fogueira de São João", "São João na Roça", "Olha pro Céu", "Pedido a São João", "Dia de São João" ou "A Noite é de São João" lembram a vida e a devoção do povo nordestino pelo primo de Jesus. Em 1965, Luiz Gonzaga gravou um disco clássico para toda a MPB e a cultura regional. "Quadrilhas e Marchinhas Juninas" está em todo bom arraial, arrasta-pé, toca-vinil ou sendo processado no mais evoluído formato de áudio.
Todos estes elementos foram, com o passar do tempo, misturando-se aos aspectos culturais dos brasileiros (indígenas, afro-brasileiros e imigrantes europeus) nas diversas regiões do país, tomando características particulares em cada uma delas. Fazendo uma analogia com alguns clássicos do rock, se os Beatles gravaram um "Abbey Road", o Deep Purple destruiu com seu "In Rock" ou o Black Sabbath lançou um certo "Vol.4", existiu um sanfoneiro de Exu, dos confins do rio Brígida, que gravou uma de suas pedras fundamentais para a história da música regional, popular e brasileira. Com fogueira, pamonha, canjica e tudo.
*En arrière! En avant tous! (*Anarriê! Alavantú!)
Viva o Nordeste!
(Renildo Carlos)

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