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23/04/20

AMIGO por Agildo Galdino*


Quantas coisas evitei, que lembrassem minha querida mãe logo nos primeiros meses de sua passagem. Relutei naqueles momentos em escrever algo sobre ela. Devia-me isso e provavelmente agora passado pouco mais de um ano, deverei lhe dedicar algumas palavras. Qualquer dia desses, espero.

Mas hoje, a saudade bateu mais uma vez a minha porta e desta vez por um amigo e independentemente de qualquer interpretação desse sentimento é inevitável não senti-lo por aqueles que se vão. Em nosso viver nesse plano, queiramos ou não, haveremos de enfrentar muitas despedidas e cabe-nos guardar sempre as lembranças daqueles que conosco viveram.

Pois é, o meu amigo gostava de música, de seresta... Cantava e dedilhava as cordas de um violão. Também, pudera. Tinha uma alma de poeta. A saudade, essa coisa nossa de brasileiro, às vezes vem mansinha, outras tantas chega mais apressada e se instala dentro de nós de uma maneira única de sentir de cada um que por aqui lhe é permitido ficar mais um pouco, pois somos hóspedes nessa morada. Mas seja quão forte a saudade for, há que, aos poucos, ir se abrandando. É natural. Para se guardar lá no fundo do coração, de cada um dos amigos e familiares.

Assim, é que venho penhorar in memoriam o privilégio de tê-lo como amigo e de usufruir de sua convivência como confrade na Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras (ACACCIL) da qual foi um de seus mais ilustres e expressivos acadêmicos, figurando na galeria de seus fundadores. Entre tantas outras instituições de caráter cultural e profissional, foi também fundador da União Brasileira de Escritores - Núcleo Caruaru, e desta diretor jurídico.

Essa separação física que nos deixa órfão de sua amizade, de sua experiência e saber impede-nos de tê-lo conosco junto aos pares nas manhãs de cada último sábado do mês, lá no Casarão da rua 15 de novembro, 215, onde era presença constante desde 1982 trazendo suas valorosas e assertivas opiniões para o engrandecimento de nosso coletivo. 
Como somos gratos!

É isso mesmo! Com todas as letras, sentiremos sempre a sua falta e de suas contribuições que no campo jurídico o tornou esteio da ACACCIL, tendo com certeza prestado prestimosa contribuição a outras instituições culturais e profissionais de nossa Caruaru.

Homem de grande generosidade, habilidoso, fortes características visíveis para quem com ele conviveu. Para a família, o amor era orgânico, ao trabalho, esmerava-se na dedicação e aos amigos, dedicava-lhes presença e companheirismo.

Como lembro de você, Walter, naquela mesa no Shopping, arrodeado por familiares ou amigos, tomando sua cervejinha antes do almoço, descontraindo-se dos afazeres profissionais intensos da semana.

Caruaru ficou de luto e desolada, pela perda de um dos mais ilustres e expressivos representantes do meio cultural, acadêmico e jurídico da municipalidade. Você, amigo, deixou sua marca na estrada da vida, e nessa trajetória não tolerou iniquidades ou injustiças sociais. Você foi simplesmente especial e nos deixou relevante legado de sabedoria e exemplo de vida.

Assim, para finalizar esse meu alinhavado texto, permita-me lembrar Cecília Meirelles: “Há uma saudade sábia, que deixa as coisas passarem, como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua essência de eternidade”. Pois é, a hora não é de tristeza, mas
de lidar com as recordações e com a saudade de forma positivamente alegre.

Ilustre e querido Walter Augusto de Andrade, não foi fácil encontrar as palavras para expressar nesse humilde texto a sua relevância, dividido como fiquei entre a formalidade que o contexto impõe e a intimidade fraterna de que gozávamos no cotidiano. Mas é isso, quem tem amigos sabe que eles estarão sempre no nosso presente e que a recordação será uma constante.

*Agildo Galdino - preside a Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras (ACACCIL) e também do núcleo local da União Brasileira de Escritores (UBE).
É professor e pesquisador. Tendo dezenas de crônicas e contos publicados em jornais e revistas muitos com cunho memorista.

27/04/18

Ao mestre Honório com carinho e saudade


“O professor de Matemática em geral é um sádico. Ele sente prazer em complicar tudo” (Malba Tahan).

Muito difícil dizer hoje qual professor que marcou mais a minha vida, pois fiz parte de uma geração de grandes profissionais. Porém, ainda que eu levasse em consideração todo período em sala de aula, Honório Inácio estaria entre os cabeças da lista.
Discípulo de Malba Tahan, nome fictício de Júlio César de Melo e Sousa, matemático e escritor modernista pioneiro no Brasil na transmissão do ensino diferenciado na Matemática, Honório tornou-se marcante numa época (final dos anos 70) de autoritarismo militar. Fui seu aluno quando estudava no Colégio Sete de Setembro (ele também atuou no Municipal Alvaro Lins, Estadual Nelson Barbalho, Industrial Dom Miguel e Diocesano). E eu cresci naqueles anos onde cantávamos:
"Esse é um país que vai pra frente, oh, oh, oh, oh, oh!
De uma gente amiga e tão contente! Oh, oh, oh, oh, oh ..." (Os Incríveis)
Cercado de todos aqueles formalismos na classe de aula, e a figura do professor Honório, com aquele porte físico e bigodão já aparentava muito rigor, exigência, respeito, admiração e muita atenção em suas aulas, que nem de longe eram monótonas.
Como ele conseguia isso? Com um equilíbrio raríssimo para época.


Sua postura didática era ensinar a matemática de uma forma divertida e diferente, o que nos desafiava aguçando a criatividade e incentivando descobertas. O quatro era fechado, não era aquela "cadeira de cabeça para baixo" e o sete não se cortava ao meio. Honório sentava tanto na cadeira quanto no birô do professor. Quando nos percebia distraído na aula quebrava um pedaço do giz e jogava no aluno. Ele conseguia transmitir o conteúdo de forma atraente e, apesar do bigodão aparentar um cara "fechado", seu largo sorriso e olhos brilhavam nos diversos momentos descontraídos com a turma.

Possuidor da arte de tornar o aprendizado da Matemática algo prazeroso e descomplicado, Honório foi um revolucionário de sua época e permaneceu influenciando gerações enquanto educador. Para ele, assim como Malba, a Matemática é uma senhora que ensina o homem a ser simples e modesto e a base de todas as ciências e de todas as artes.

Enfim, quantos alunos ainda hoje se queixam do excesso de memorização e dos cálculos repetitivos e não enxergam a utilidade dos conteúdos aprendidos? Quantos Professores despreparados não sabem o que fazer para tornar as aulas mais atraentes? 

A tristeza da partida de Honório também nos leva a ser eternamente agradecidos pelo impacto que nos deixou. Nos desafiando a continuar fora da escola o que aprendemos lá dentro, como uma ponte entre escola e vida.

Oironoh, Presente! Presente! Presente!

Oluap