O combustível do país

junho 13, 2018


Um dos aspectos da mídia alternativa é apresentar olhares diferenciados dos modelos estabelecidos pela mídia tradicional. Com este propósito, o Caruaru No Face produziu o documentário “O combustível do país”. Para tanto, os jornalistas Geraldo Mendonça e Karol Matos passaram cinco dias acompanhando os caminhoneiros que estavam em Caruaru, durante a recente paralisação nacional.

Com uma estética bastante peculiar, o documentário propõe-se a apresentar as mais diversas nuanças que haviam dentro do movimento. Indo além do aspecto político e econômico, é possível perceber a humanidade em cada um dos protestantes, bem como dos cidadãos que se propuseram a colaborar, de alguma forma, com os caminhoneiros.

A edição por vezes ‘brusca’ e a predominância de som ambiente contribuem para uma aproximação do espectador com o ambiente em questão, de modo que o mesmo pode sentir-se participante das cenas reais, sem emotividade exacerbada que poderia ser gerada através de BGs ou outros recursos técnicos.  A despeito da curta duração – apenas 10 minutos –, o filme possui um conteúdo riquíssimo, que merece a atenção de especialistas das mais diversas áreas, bem como do público geral.

O documentário deixa nítida a aversão do movimento para com atos de vandalismo, os quais não coadunam com os princípios da categoria. Temas controversos como pedidos de intervenção militar e a retirada do presidente em exercício, eleito na chapa do PT no último pleito, também figuraram nas manifestações e são mostrados na obra sem emissão de juízo de valor por parte dos produtores do vídeo. Em tempos de fake news, a postura profissional e responsável adotada pela produção do documentário é um verdadeiro bálsamo para o público.

Em uma entrevista ao programa Segurança e Cidadania, veiculado também pelo Caruaru No Face, o jornalista Geraldo Mendonça explanou: “No documentário, a gente quer dar voz aos caminhoneiros, para que eles expliquem o que os levou a promover a paralisação, bem como mostrar como era a vivência no local – o almoço, a dormida... o documentário foi feito pensando em dar voz ao caminhoneiro, pois a voz do governo e do sindicalista já foi transmitida pelos veículos de TV e rádio”. Destarte, a mídia alternativa não se apresenta como uma concorrente das mídias tradicionais, mas sim como uma forma complementar, que permite aos cidadãos o acesso às mais diversas narrativas.

Ademais, ao retratar os ‘intestinos’ da paralisação, a obra assume um caráter metonímico da população média brasileira. A solidariedade; a valorização e o consumo da cultura popular; a profissão da religiosidade respeitando as demais crenças e não-crenças; além do sotaque regional ganham proeminência no filme.

Assistir ao documentário “O combustível do país” é mais do que compreender o fenômeno tópico das recentes paralisações. É compreender que o verdadeiro combustível do Brasil é o seu povo – que é, sim, honesto, responsável e trabalhador. É visualizar, para além de qualquer dúvida, que o brasileiro médio possui ética, cultura e cosmovisão divergentes da elite intelectual, econômica e midiática. Enfim, é usar a nossa linguagem para dizer aos senhores de Brasília que eles estão desconectados da realidade do Brasil, e que novos tempos poderão florescer em terras tupiniquins, tendo como maior protagonista o povo trabalhador.

Confira o documentário aqui:

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