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Há um espaço em Caruaru, bem conhecido por
seus habitantes, onde fica localizado o Pátio de Eventos Luiz Gonzaga, no
centro da cidade. O espaço, além de abrigar um dos palcos no São João, é
dividido em várias áreas. Do lado esquerdo da estátua de Luiz Gonzaga fica o
Museu do Barro de Caruaru, e do lado oposto, no galpão, fica a Fundação de
Cultura de Caruaru e o museu da Fábrica Caroá.
Esse último museu especificamente, existe pra
manter viva um pedaço da história de Caruaru, de uma fábrica que não existe mais.
A fábrica existiu exatamente naquela área
inteira do que é hoje o Pátio de Eventos Luiz Gonzaga. Foi construída por um
cidadão chamado José de Vasconcelos e Silva, nascido na cidade de Bonito em
1872. Ele se casou com Otília Limeira em 1896, mesmo ano que criou a firma
chamada “José de Vasconcelos & Cia”, para fazer negócios com algodão e
vender para PE, PB e RJ.
A família inteira de José de Vasconcelos era
bem sucedida, e com a volta dos filhos da Europa, os negócios de algodão da
“José de Vasconcelos & Cia” ganha mais força. Nessa mesma época, surge a
idéia de empreender com a desfibração do caroá.
O caroá é uma planta fibrosa, típica das
caatingas do nordeste, com nome derivado do tupy, que significa “talo com
espinho”. É muito usada na fabricação de cordões, cordas, cabos, barbantes,
brim, tapetes, papel, papelão, sacos e seda vegetal.
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A planta Caroá na caatinga seca
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A partir disso, que José de Vasconcelos decide
construir em Caruaru, a “Fábrica Caroá” para trabalhar com essa desfribação do
caroá. A construção da fábrica começou no início da década de 30, e mudou o
rumo das conversas de botequim e final de tarde na cidade, por se tratar de um
empreendimento muito grandioso pra época, com um altíssimo custo financeiro.
A construção demorou 2 anos pra ficar pronta,
inaugurando com uma grande e aguardada festa de inauguração - só para
convidados vips - no dia 09 de Setembro de 1935.
Boa parte do maquinário da fábrica vinha da
europa, e era de última tecnologia. Apesar disso, a fábrica era quase toda auto
suficiente, a manutenção das máquinas eram feitas pelos próprios funcionários,
e lá dentro tinha seção de elétrica, carpintaria e até algumas máquinas foram
construídas lá dentro mesmo. A fábrica era tão auto suficiente que um dos
grandes feitos foi quando ela começou a produzir sua própria energia elétrica,
de modo que entrou num acordo com a prefeitura para distribuir parte dessa energia
para a população. Em troca, o prefeito da época, cel. João Guilherme,
beneficiaria a indústria com a redução do preço da água.
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| Teares da caroá - anos 40 |
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| Transporte da fibra de caroá |
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| Secagem da fibra de caroá |
Um dos projetos da fábrica também foi a
construção de uma vila operária dentro das instalações da fábrica, a “Vila
Caroá”. Nessa época, a área da fábrica era enorme, e era maior do que a área
construída, desde a rua que desce pro bairro do Salgado, até o colégio Vicente
Monteiro, indo até ali no antigo Comprebem, era da Caroá. Ao lado do antigo
Comprebem, onde era antigamente a casa de Dr. Veloso, era a casa de José de
Vasconcelos inclusive. E ele construiu a vila para os encarregados e chefes das
seções, todos eles ganharam casa, e ainda deram mais algumas casas pra quem não
tinha casa. E segundo depoimento de ex-funcionários da fábrica, as poucas casas
que foram doadas, eram doadas mesmo, de graça.
“Nessa época, ninguém comprava nada parcelado
em Caruaru, só à vista, e para os funcionários que não tinham dinheiro, o que
José de Vasconcelos fez foi o seguinte, você comprava o seu objeto e pagava
depois com o salário família, a fábrica descontava do seu salário família”
(depoimento de Sr. Paulo Lavoura, e Sr. Sebastião, ex-funcionários da fábrica).
Esse salário família era uma pequena taxa adicional ao salário proporcional a
quantidade de filhos que o funcionário tinha.
Dentro da vila, também tinha o clube da caroá,
destinado ao lazer de seus operários, era um clube dançante onde rolava muito
som de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga.
Mas todas essas benfeitorias não saía
totalmente de graça, em troca os operários tinham que seguir absolutamente as
regras, era uma forma de manter o controle sobre eles.
Apesar da fábrica ser um aspecto extremamente
positivo pra história de Caruaru e sua existência foi de grande importância pra
cidade, não deixando de reconhecer todas as coisas boas que a fábrica
proporcionou, mas existe também alguns pontos negativos no dia-a-dia dela. Em
meados da década de 30, o governo vigente era o de Getúlio Vargas, e com isso
veio a criação de alguns ministérios como o do trabalho. O trabalho infantil já
era proibido nessa época, mas as leis não foram obedecidas assim tão de
imediato. Na Caroá, muitos funcionários tinham em média entre 11-18 anos.
Alguns funcionário eram demitidos pouco antes de completar 1 ano de trabalho,
depois recontratados 2-3 meses depois, só pra não ter que pagar direitos
trabalhistas como 13º salário. Os funcionários efetivados depois de 1 ano de
trabalho recebiam normalmente os direitos.
A
falência
A Caroá funcionou muito bem até o início da
década de 70, onde começou uma série de mudanças de cargos e administrações (o
fundador José de Vasconcelos já tinha falecido a tempos nessa época, em 1949),
caindo numa crise administrativa e econômica cada vez pior. A má administração
levou a fábrica a se endividar muito, os salários da maioria dos 240
funcionário atrasados e por aí vai. Como não podiam fazer empréstimo ao banco
por dificuldades financeiras e burocráticas, o Banco do Brasil resolveu fazer
um acordo, pagava todas as dívidas da fábrica e todos os salários atrasados, em
troca ficava com o patrimônio inteiro. Negócio fechado, a fábrica fechou
oficialmente em 1979, e agora era de propriedade do Banco do Brasil. Pouco
depois, com a interferência do Ministro da Justiça da época, Fernando Lyra, a
propriedade foi doada ao governo municipal, que reformou o prédio e as
instalações e inaugurou no dia 30 de Dezembro de 1988, o Espaço Cultural
Tancredo Neves e o Museu da Fábrica Caroá (ou seja, completando agora em 2018,
30 anos de inauguração).
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Fios
de caroá desfibrado - Acervo do Museu da
Fábrica Caroá (Fonte: http://museusdecaruaru.blogspot.com)
Bobineira
- Acervo do Museu da Fábrica Caroá (Fonte: http://museusdecaruaru.blogspot.com)
Parte das instalações da fábrica, onde fica a
chaminé por exemplo (ou o “bueiro da caroá”), funciona hoje o Museu do Barro de
Caruaru, e aquele largo que sobrou no meio (depois da Vila Caroá ser demolida)
é hoje o Pátio de Eventos Luiz Gonzaga.
Algumas máquinas, registro de ponto, e
fotografias também foram preservadas no museu da Fábrica Caroá no galpão da
Fundação de Cultura. A Caroá é um pedaço de extrema importância pra história de
Caruaru, com ela, não só a economia da cidade mudou como a rotina dos
habitantes também, que se baseavam no “apito da caroá” (nome popular do sinal
de troca de turno) para acordar, ir pra escola, ou coisas do tipo.
Essa história muitas vezes é esquecida, mas o museu
funciona todo dia lá no galpão da Fundação de Cultura pra manter essa história
sempre viva.
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| Fábrica Caroá vista de cima |
Referências:
- "PEREIRA, George. TEIXEIRA, Geyse Anne.
Fábrica Caroá - História e Memória
- O grupo “Caruaru Arcaico”,
onde encontrei as imagens










Um comentário:
Texto ótimo. Boas lembranças, parabéns.
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