19/08/19

Cidadania e Fé - RELIGIÃO CIDADÃ - por João Alfredo


A ênfase que muitos cristãos atribuem à salvação individual e ao fim dos tempos como o momento em um futuro incerto em que todos os problemas da humanidade serão solucionados, parece contribuir para uma visão distorcida acerca da religião da Bíblia. Seria uma religião descolada da realidade do mundo, produzindo pessoas preocupadas apenas com a sua redenção eterna e insensíveis aos problemas concretos ao seu redor. Seria, enfim, uma religião que aliena o homem de si mesmo e dos outros.
Não obstante a Bíblia falar da realidade do pecado, da necessidade da salvação de cada pessoa, de um juízo final e da criação de um novo céu e uma nova terra pela ação divina, a espiritualidade bíblica não está desvinculada de uma ética “mundana”.

No seu sermão escatológico, registrado no evangelho segundo Mateus, Jesus ensinou que, no grande julgamento, os herdeiros do Reino de Deus serão os que alimentaram o faminto, saciaram o sedento, hospedaram o forasteiro, vestiram o nu, ampararam o enfermo e visitaram o preso.

Tiago, em sua epístola, afirma que a fé sem obras é morta, e que a verdadeira religião abrange cuidar dos órfãos e das viúvas em suas aflições, as duas categorias mais vulneráveis da sua época.

O profetismo hebraico, séculos antes de Cristo, é repleto de graves denúncias contra a opressão dos pobres pelos ricos e poderosos, o acúmulo de riquezas a custa da exploração dos menos favorecidos e o culto hipócrita, no qual os celebrantes comparecem ao templo para adorar a Deus com as mãos “cheias de sangue”.

Isaías escreveu que o jejum que agrada a Iavé implica quebrar as correntes da injustiça, desfazer as ataduras da servidão, deixar livres os oprimidos, repartir o pão com os famintos, recolher os desabrigados e não voltar as costas ao semelhante.

Oseias registrou a ordem de Deus para que seu povo semeie a justiça. Igualmente Amós exortou Israel a promover a justiça nos tribunais. Jeremias, o profeta que viu a destruição de Jerusalém pelo exército da Babilônia, acusou aqueles que sonegavam o salário do trabalhador, falou em nome de Deus que fosse praticado o direito e a justiça, que o oprimido fosse livrado da mão do opressor e que conhecer a Deus era atender à causa do aflito e do necessitado.
Recuando ainda mais, o Pentateuco traz uma quantidade considerável de preceitos com impactos sociais positivos. No livro de Êxodo, Deus livra Israel da escravidão egípcia. Nos Dez Mandamentos, lemos que o privilégio do descanso sabático era para todos, homens e mulheres, adultos e crianças, senhores e servos, israelitas e estrangeiros, e até o animais. O livro de Deuteronômio contém dezenas de leis que classificaríamos hoje como preceitos ligados à promoção da chamada justiça social.

Enfim, por toda a Bíblia encontramos registros deixando patente que a verdadeira espiritualidade não se limita ao cultivo de práticas religiosas individuais e contemplativas e participação em cultos. Servir e obedecer a Iavé também sempre impôs aos seus adoradores olhar para o mundo e a se responsabilizar pelo que nele acontece, chamando-os a uma ação transformadora.

Se é certo que a Bíblia ensina que a humanidade, por si só, não é plenamente capaz de acabar com suas contradições e problemas, também é certo que o Evangelho convida a todos a trabalhar pela efetivação dos valores do Reino de Deus aqui e agora como um anúncio, mesmo que ainda imperfeito, do que virá no futuro, quando tudo se fará novo e não haverá mais pranto, dor e morte – “novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça”.

*João Alfredo Beltrão Vieira de Melo Filho é graduado em Bacharelado em Direito pela Associação de Ensino Superior de Olinda (1999) e mestrado em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco (2010). Atualmente é professor assistente da Associação Caruaruense de Ensino Superior. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Processual Civil.


4 comentários:

Kézia Lyra disse...

Parabéns por mais esse excelente texto!

Unknown disse...

Boa reflexão , nos mostra que antes de efetivarmos a condição de cidadãos dos Céus , temos um responsabilidade terrena .

Sóstenes Gondim disse...

Registrando o comentário anterior

Unknown disse...

Parabéns,mais uma vez com prazer,leio e reflito no nosso papel como cidadã,cidadãos que formamos a sociedade.