Dona Maria Nunes, tinha com seus 89 anos uma memória
privilegiada. Dava inveja até aos mais jovens. Era a primogênita da união entre
João Teotônio e Quitéria Nunes. Lembra ela que seu pai sempre gostou de possuir
bons cavalos, sendo inata a paixão dele por essa preciosidade de animal. Nunca
ficou sem uma boa montaria pelos tempos afora em que viveu, inclusive fala-se
que ele nunca se enganou ao avaliar uma boa montaria ou mesmo um cavalo para o
manejo do gado, mesmo que ainda fossem esses poldros.
Era o “velho” João Teotônio exímio, primoroso conhecedor de
cavalos e bovinos, e conhecia ainda como ninguém a arte de compra e venda de
gado. Como se dizia antigamente comprava na passagem da boiada (das reses) pela
porteira do curral, apontando: essa aqui, aquela ali, aquela acolá, a outra lá,
essa aí e essa aqui. Assim, podia escolher quantas pretendesse que não perderia
uma rês sequer, realmente era profundo conhecedor de gado.
Segundo João Teotônio Filho – que com ele conviveu por um bom
tempo na lida da fazenda – comenta que, nos últimos tempos, quando ainda ele tinha
condições de desfrutar do prazer da montaria, possuiu dois cavalos e talvez
tenham sido seus prediletos. Um chamava-se “Dourado”, animal grande da raça
campolina, que lhe servia de montaria, principalmente para passear aos
domingos, fazer visitas nas fazendas circunvizinhas ou ir da fazenda Santo
Antônio – município de Agrestina – para outra, também de sua propriedade, a fazenda
Letreiro, situada no município de Altinho. Foi, sem dúvida, um dos marchadores
que mais ele gostou, animal dócil, ativo, de fácil manejo e obediente às ordens
do cavaleiro. O outro era um alazão bonito e esguio. Parecia um cavalo puro
sangue. Seu nome “Muleque” talvez fosse devido à fogosidade, tenacidade e
comportamento brincalhão quando tangia as reses para o curral.
Eu e meus primos Walter Levita, Marcos Antonio e Mané Grosso,
filho de um irmão de minha avó, frequentemente, participávamos da
extraordinária “aventura” das férias: todas as tardinhas reunir no pasto e
tanger as vacas de leite e seus bezerros para o curral para o desmamar do outro
dia. “Veludo” era um belo cachorro, todo preto com uma cola branca no pescoço.
Segundo João, não tinha raça definida, mas era um maestro em nos ajudar a tocar
o gado. Montávamos os cavalos, sem sela, como se diz, no lombo. Às vezes apenas
com uma manta.
É inevitável para mim falar do “Dourado” e do “Muleque” e não
recordar um outro cavalo dos meus tempos de menino na fazenda. Quando o conheci
já era velho, tanto que o chamávamos de “Pau veio”. De cara comprida, cor
marrom escura, grandalhão, morreu de velho e nunca deixou ninguém montar em sua
garupa. Era queda certa. Eu mesmo fui uma de suas vítimas.
Certo dia, juntamente com os primos Walter Levita, Mané
Grosso e um colega chamado Claudionor, fomos tomar banho no saudoso rio Una,
logo abaixo da barragem que o velho João Teotônio tinha construído em suas
terras. Para irmos para o local do banho a pé, teríamos de andar bastante,
então levávamos os cavalos para dar-lhes um banho, matando dois coelhos com uma
paulada só. Cada um montava um cavalo e nesse dia o cavalo no qual estava
montando, quando o banhava algo o espantou e ele saiu em disparada de volta
para casa. Walter e Claudionor sairão em perseguição e tive de pegar uma carona
com o Mané Grosso que montava Pau veio. Mal pegamos a reta de casa uma estrada
estreita, ele avisou de sua insatisfação, relinchou mas não demos ouvido. E lá vamos
nós, a galope, rapidamente, quase correndo quando ele parou bruscamente, usando
as patas dianteiras e baixando o pescoço. Não deu outra. Passei voando por cima
da cabeça de Mané Grosso que ficou dependurado pelo pescoço dele.
Voltemos a falar do “velho” João
Teotônio. Quão forte era a ligação entre ele e seus cavalos. Houve momentos em
sua vida em que eles o livraram até mesmo da morte, como se diz, de “morte
matada”. Como no ano de 1957, quando jurado de morte, já há tempos, por um
indivíduo conhecido pela alcunha de Maxixe,
deslocara-se para a fazenda
vizinha de seu compadre “Dedé Machado”, desarmado, sendo a primeira vez que
saíra assim, desde que fora ameaçado. Embora criança, lembro-me bem quando
minha avó o abordou:
– João, não vais levar o revólver
(havendo-o deixado sobre um cofre)?
– Besteira, Quitéria, precisa mais
não.
Sem ninguém por perto, sozinho
examinava a pata de um cavalo em frente à casa grande de seu compadre, aonde
teria ido para experimentar o galopar de outro cavalo, distanciando-se do local.
Nesse momento o “velho João Teotônio encontrava-se de cócoras e de camisa
branca justa por dentro da calça.
Sorrateiramente, o indivíduo, feito
um felino, ali chegou para cumprir a promessa de mais de três anos e investiu
sobre ele pelas costas com uma faca peixeira. Nesse momento seu cavalo que
estava ao lado descansando pressentiu o movimento do indivíduo com a peixeira
na mão. Então levantou bruscamente a
cabeça em direção ao indivíduo desviando aquela primeira investida a qual teria
sido fatal, pois o pegaria de costas, desprevenido. Outras facadas, porém, o atingiram.
Logo foi socorrido com a chegada de seu compadre. O velho João Teotônio, no
entanto, sobreviveu a mais de uma dezena de perfurações ou rasgões pelo corpo
todo. Morreria, trinta e cinco anos depois, em 1992, feito um passarinho, em
sua casa, rodeado por seus familiares.
Agildo Galdino - preside a Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras (ACACCIL). É professor e pesquisador. Tendo dezenas de crônicas e contos publicados em jornais e revistas muitos com cunho memorista.


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