23/08/19

Coisas da Vida - Paixão por Cavalos - por Agildo Galdino*


Dona Maria Nunes, tinha com seus 89 anos uma memória privilegiada. Dava inveja até aos mais jovens. Era a primogênita da união entre João Teotônio e Quitéria Nunes. Lembra ela que seu pai sempre gostou de possuir bons cavalos, sendo inata a paixão dele por essa preciosidade de animal. Nunca ficou sem uma boa montaria pelos tempos afora em que viveu, inclusive fala-se que ele nunca se enganou ao avaliar uma boa montaria ou mesmo um cavalo para o manejo do gado, mesmo que ainda fossem esses poldros.
Era o “velho” João Teotônio exímio, primoroso conhecedor de cavalos e bovinos, e conhecia ainda como ninguém a arte de compra e venda de gado. Como se dizia antigamente comprava na passagem da boiada (das reses) pela porteira do curral, apontando: essa aqui, aquela ali, aquela acolá, a outra lá, essa aí e essa aqui. Assim, podia escolher quantas pretendesse que não perderia uma rês sequer, realmente era profundo conhecedor de gado.
Segundo João Teotônio Filho – que com ele conviveu por um bom tempo na lida da fazenda – comenta que, nos últimos tempos, quando ainda ele tinha condições de desfrutar do prazer da montaria, possuiu dois cavalos e talvez tenham sido seus prediletos. Um chamava-se “Dourado”, animal grande da raça campolina, que lhe servia de montaria, principalmente para passear aos domingos, fazer visitas nas fazendas circunvizinhas ou ir da fazenda Santo Antônio – município de Agrestina – para outra, também de sua propriedade, a fazenda Letreiro, situada no município de Altinho. Foi, sem dúvida, um dos marchadores que mais ele gostou, animal dócil, ativo, de fácil manejo e obediente às ordens do cavaleiro. O outro era um alazão bonito e esguio. Parecia um cavalo puro sangue. Seu nome “Muleque” talvez fosse devido à fogosidade, tenacidade e comportamento brincalhão quando tangia as reses para o curral.
Eu e meus primos Walter Levita, Marcos Antonio e Mané Grosso, filho de um irmão de minha avó, frequentemente, participávamos da extraordinária “aventura” das férias: todas as tardinhas reunir no pasto e tanger as vacas de leite e seus bezerros para o curral para o desmamar do outro dia. “Veludo” era um belo cachorro, todo preto com uma cola branca no pescoço. Segundo João, não tinha raça definida, mas era um maestro em nos ajudar a tocar o gado. Montávamos os cavalos, sem sela, como se diz, no lombo. Às vezes apenas com uma manta.
É inevitável para mim falar do “Dourado” e do “Muleque” e não recordar um outro cavalo dos meus tempos de menino na fazenda. Quando o conheci já era velho, tanto que o chamávamos de “Pau veio”. De cara comprida, cor marrom escura, grandalhão, morreu de velho e nunca deixou ninguém montar em sua garupa. Era queda certa. Eu mesmo fui uma de suas vítimas.
Certo dia, juntamente com os primos Walter Levita, Mané Grosso e um colega chamado Claudionor, fomos tomar banho no saudoso rio Una, logo abaixo da barragem que o velho João Teotônio tinha construído em suas terras. Para irmos para o local do banho a pé, teríamos de andar bastante, então levávamos os cavalos para dar-lhes um banho, matando dois coelhos com uma paulada só. Cada um montava um cavalo e nesse dia o cavalo no qual estava montando, quando o banhava algo o espantou e ele saiu em disparada de volta para casa. Walter e Claudionor sairão em perseguição e tive de pegar uma carona com o Mané Grosso que montava Pau veio. Mal pegamos a reta de casa uma estrada estreita, ele avisou de sua insatisfação, relinchou mas não demos ouvido. E lá vamos nós, a galope, rapidamente, quase correndo quando ele parou bruscamente, usando as patas dianteiras e baixando o pescoço. Não deu outra. Passei voando por cima da cabeça de Mané Grosso que ficou dependurado pelo pescoço dele.
Voltemos a falar do “velho” João Teotônio. Quão forte era a ligação entre ele e seus cavalos. Houve momentos em sua vida em que eles o livraram até mesmo da morte, como se diz, de “morte matada”. Como no ano de 1957, quando jurado de morte, já há tempos, por um indivíduo conhecido pela alcunha de Maxixe, deslocara-se para a fazenda vizinha de seu compadre “Dedé Machado”, desarmado, sendo a primeira vez que saíra assim, desde que fora ameaçado. Embora criança, lembro-me bem quando minha avó o abordou:

– João, não vais levar o revólver (havendo-o deixado sobre um cofre)?
– Besteira, Quitéria, precisa mais não. 

Sem ninguém por perto, sozinho examinava a pata de um cavalo em frente à casa grande de seu compadre, aonde teria ido para experimentar o galopar de outro cavalo, distanciando-se do local. Nesse momento o “velho João Teotônio encontrava-se de cócoras e de camisa branca justa por dentro da calça.

Sorrateiramente, o indivíduo, feito um felino, ali chegou para cumprir a promessa de mais de três anos e investiu sobre ele pelas costas com uma faca peixeira. Nesse momento seu cavalo que estava ao lado descansando pressentiu o movimento do indivíduo com a peixeira na mão.  Então levantou bruscamente a cabeça em direção ao indivíduo desviando aquela primeira investida a qual teria sido fatal, pois o pegaria de costas, desprevenido. Outras facadas, porém, o atingiram. Logo foi socorrido com a chegada de seu compadre. O velho João Teotônio, no entanto, sobreviveu a mais de uma dezena de perfurações ou rasgões pelo corpo todo. Morreria, trinta e cinco anos depois, em 1992, feito um passarinho, em sua casa, rodeado por seus familiares. 

Agildo Galdino - preside a Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras (ACACCIL). É professor e pesquisador. Tendo dezenas de crônicas e contos publicados em jornais e revistas muitos com cunho memorista.

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