26/07/20

Artista plástica Tereza Costa Rêgo morre, aos 91 anos, no Recife


Morreu, aos 91 anos, a artista plástica Tereza Costa Rêgo. O falecimento ocorreu na manhã deste domingo (26), na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Joana, no bairro das Graças.

Por meio de nota, a família informou a morte de Tereza e agradeceu as "condolências de mensagens recebidas". No texto, os parentes destacam a relação da artista com o público.

"Elas só mostraram o quão querida ela era por todos. Devemos sempre lembrá-la com amor, gratidão, alegria e saudade por tudo o que Tereza nos proporcionou em vida. Neste momento de dor e profunda tristeza, a família pede aos amigos e amigas, sensíveis compreensões para que ela possa, nos seu convívio, superar a imensurável perda", afirma a nota.

Um dos maiores nomes da arte modernista em Pernambuco, a pintora estava em casa quando, durante a madrugada de sábado (24), sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), conhecido popularmente como derrame cerebral.

Ela foi socorrida ainda em casa por uma equipe médica e levada para a unidade de saúde. No caminho, a artista plástica sofreu uma parada cardíaca e foi reanimada pelos paramédicos. O estado de saúde de Tereza era gravíssimo quando ela deu entrada no hospital.

Tereza Costa Rêgo faleceu após um Acidente Vascular Cerebral — Foto: Roberta Rêgo / G1

Tereza Costa Rêgo faleceu após um Acidente Vascular Cerebral — Foto: Roberta Rêgo / G1

O velório da artista, segundo a família, ocorre às 10h de segunda-feira (27), no Cemitério de Santo Amaro, no Centro do Recife. Meia-hora depois, está marcada uma bênção com frei Rinaldo, amigo de Tereza, e pároco da Igreja da Madre de Deus.

O sepultamento está agendado para as 11h, também em Santo Amaro. A família informou que a cerimônia será restrita em virtude dos protocolos de segurança impostos por causa da pandemia do novo coronavírus.

História

Tereza Costa Rêgo tinha duas filhas, três netos e uma bisneta. Filha de uma família tradicional da aristocracia rural pernambucana, Tereza começou a pintar ainda criança. Aos 15 anos ingressou na Escola de Belas Artes, no Recife. Foi casada durante 14 anos.

Dedicada quase que exclusivamente à pintura, foi contemplada com três prêmios do Museu do Estado e outro da Sociedade de Arte Moderna. Em 1962, realizou a primeira grande exposição, na Editora Nacional.

No mesmo ano, envolveu-se com o dirigente do Partido Comunista Diógenes Arruda e deixou o Recife. Em São Paulo, por motivos políticos, viveu na clandestinidade até 1969, quando seu companheiro foi preso. Aproveitou o tempo fora para se dedicar à arte e aos estudos, formando-se em história na Universidade de São Paulo (USP).

Casa de Tereza Costa Rêgo — Foto: Roberta Rêgo/G1

Casa de Tereza Costa Rêgo — Foto: Roberta Rêgo/G1

Ela passou a dar aulas de História para vestibulandos e a trabalhar como paisagista em um escritório de planejamento. Em 1972, quando Diógenes foi libertado, o casal seguiu exilado para o Chile, mas com o golpe militar naquele país fez com que eles voltassem a se mudar.

Tereza e seu companheiro passaram seis anos em Paris, na França. Em nenhum momento ela parou de pintar. Expôs seus quadros, assinando com o nome de Joanna. Fez doutorado em História, na Escola de Altos Estudos da Sorbone, também na França.

De volta ao Brasil, em 1979, Diógenes não resistiu e morreu de ataque cardíaco. Tereza firmou-se como artista plástica de destaque em Pernambuco. Comprou uma casa em Olinda, onde morava e pintava.

Fez mestrado em História na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e trabalhou na Prefeitura de Olinda. Foi diretora do Museu Regional e, por 12 anos, do Museu do Estado de Pernambuco. São Paulo, Rio de Janeiro, Lisboa, Paris e Cuba, entre outros lugares, foram cenário para as exposições da artista.

Frases de Tereza

A artista gostava de pintar animais. Em suas entrevistas, costumava explicar essa paixão. “Sempre que eu trabalho eu boto os bichos porque eu tenho uma relação muito forte com os animais. Eu acho que eu sou mais bicho do que gente".

Tereza também falava sobre a arte figurativa, que era expressiva na sua obra. "A minha pintura é uma pintura figurativa, mas não é acadêmica e nem é panfletária. Eu tenho trabalho sobre Guararapes, sobre Zumbi, sobre Canudos. Como sou historiadora, eu sempre que posso misturo a história com o meu trabalho.”

Sobre o seu perfil, ela dizia: “Eu sou muito realista. Eu sonho muito, mas meu pé não sai do chão. Eu sou de Touro, que é um signo muito da terra.”

Repercussão

Por meio de nota, o governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), afirmou que o "cenário artístico e cultural de Pernambuco ficou menor com a morte de Tereza Costa Rêgo". Segundo ele, "é impossível dimensionar, em palavras, a importância da sua obra para o nosso estado e para o Brasil".

O gestor destacou os atributos da artista e o seu currículo: "paisagista, doutora em história, militante de esquerda, Tereza era, acima de tudo, uma artista plástica de corpo e alma, que traduzia com beleza e perfeição seus sentimentos nas telas, retratando ali o imaginário popular, nossas lutas libertárias, a força da mulher, paisagens de Olinda e Recife e tantas outras figuras da nossa cultura".

O Bar Savoy, acrílico sobre madeira de Tereza Costa Rêgo — Foto: Reprodução/Tereza Costa Rêgo

O Bar Savoy, acrílico sobre madeira de Tereza Costa Rêgo — Foto: Reprodução/Tereza Costa Rêgo

Câmara disse, ainda, que "sua partida fará uma imensa falta à arte brasileira" e prestou solidariedade aos seus familiares, amigos e admiradores, "neste momento de profundo pesar".

O prefeito do Recife, Geraldo Julio (PSB), disse, por meio de nota, que é "irrecuperável a perda de Tereza Costa Rêgo, que nos deixou hoje". O gestor classificou a artista como como "um símbolo de resistência e liberdade e um grande exemplo da força da mulher recifense".

Geraldo lembrou que, em 2019, ela foi homenageada na edição da agenda da Secretaria da Mulher, que a cada ano "celebra uma grande mulher".

"Feliz de poder ter deixado essa pequena homenagem ainda em vida à artista cuja força da obra não deixará morrer o legado. Quero mandar meus mais sinceros sentimentos à família e amigos., disse o texto.

O prefeito de Olinda, Professor Lupércio (SD), também falou sobre a morte de Tereza Costa Rêgo, por meio de nota. O gestor disse que "o talento como artista e paisagista tão bem engrandeceu a cultura de Olinda, onde manteve seu famoso ateliê".

Neta de Tereza, a jornalista Joana Rozowik disse que a artista "era um acontecimento, uma força da natureza. Uma pessoa muito cheia de vida, uma cabeça muito jovem e inquieta". Segundo uma das netas da pintora, fica a saudade do convívio e "dessa voz coerente que ela sempre foi".

Para Joana, a pintora Tereza Costa Rêgo "não acaba, continua". "A grandeza de sua obra, sua contribuição para a arte, a cultura e os costumes de nosso país ficam para o mundo. Agora devemos trabalhar para que seu acervo seja preservado e que mais e mais pessoas tenham acesso a ele", afirmou, por meio de nota.

A morte de Tereza foi lamentada pelo presidente da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), Ricardo Leitão. Por meio de nota, o jornalista disse que “Tereza Costa Rêgo foi uma mulher e uma artista que marcou a sua geração pela liberdade com que ela viveu e a criatividade com que exerceu a sua pintura”.

O presidente da Fundação de Cultura de Pernambuco (Fundarpe), Marcelo Canuto, destacou que "Tereza vai viver eternamente na memória de todos que a conheceram. Não só pelo conjunto de sua obra, política por essência, mas também pelo exemplo de mulher que foi: bem posicionada em relação ao seu tempo, generosa, militante, apaixonada, intensa".

Canuto disse que, antes da pandemia do novo coronavírus, a Fundarpe planejava uma exposição de Tereza para o primeiro semestre deste ano.

"Na época, a visitamos, e depois conversamos em várias oportunidades. Pudemos aproveitar de sua vivacidade e amor pela vida. Pernambuco e o mundo perdem uma das maiores pintoras do século 20. Ficamos com seu exemplo e sua obra, que eternizam o nome de Tereza por esta e pelas próximas gerações", ressaltou.

A secretária de Cultura do Recife, Leda Alves, e o presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, Diego Rocha, lamentam o falecimento da artista plástica Tereza Costa Rêgo, “uma das mais ativas e altivas defensoras da arte modernista de Pernambuco e do mundo inteiro”.

“Perdemos hoje uma das maiores artistas do nosso tempo, do século passado e de todos que ainda estão por vir. A força e a importância histórica do seu trabalho legam eternidade à arte pernambucana, nordestina e brasileira”, afirmou o presidente Fundação de Cultura do Recife, Diego Rocha, por meio de nota.

Tereza Costa Rêgo era conhecida pela intensidade nas suas pinturas — Foto: Roberta Rêgo/G1

Tereza Costa Rêgo era conhecida pela intensidade nas suas pinturas — Foto: Roberta Rêgo/G1

Leda Alves, secretária de Cultura do Recife, comentou a morte da artista e a lacuna enorme deixada pela amiga pessoal e de longas datas:

“Tereza deixa um vasto e raro conjunto de pinturas políticas, religiosas e profanas, fêmeas, eróticas e belas, com extraordinárias figuras de mulheres, que sempre contarão a nossa história. Sua morte silencia o vermelho, mas sua obra aguda, que falava de amor e de luta, de liberdade e de revolução, seguirá a denunciar a eternidade do que só Tereza viu, viveu e foi até o derradeiro dia de sua vida”, disse a secretária, também por nota.

"Uma das maiores pintoras desse Brasil, uma mulher apaixonada pela vida. Teve coragem de romper com tantas estruturas, reinventar tantas outras. Apaixonada pelos amigos, pelo amor, pela família. Me acolheu como amigo, como uma pessoa para quem ela teve a confiança de contar sua vida para que eu pudesse escrever a biografia dela", disse o biógrafo Bruno Albertim.

"Uma artista imensa, intensa. Uma arte muito forte. Uma artista do vermelho, muito visceral. Era tudo muito carne e alma", relatou a artista plástica Dani Acioli.

A diretora do Museu do Estado, Margot Monteiro, também homenageou Tereza. "Uma grande artista, grande mulher, grande lutadora que marcou, com sua presença, não só com seu trabalho de arte, mas com suas ideias sociais, politicas, com a força de uma mulher pernambucana", disse.

"Tereza Costa Rêgo é e sempre será a voz maior da beleza e da sensibilidade feminina da arte de Pernambuco e do Brasil", afirmou o curador Marcus Lontra.

Fonte: G1

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