“VITÓRIA E AS ESTRELAS”

junho 29, 2018


Há quanto tempo você não olha os céus? 

Não! Não se preocupe em responder, essa desatenção não é culpa tua tão somente. Eu mesmo faz um tempão que ando desligado de contemplar as estrelas dos céus. Mas dia desses estávamos deixando o local onde a Lúcia Vitória participara de sua festa de formatura da Educação Infantil, quando sua atitude fez chamar minha atenção para que eu viesse a erguer meu olhar para o céu naquela noite escura. Mas o que tem isso a ver com as estrelas? 


Vamos ver o que se passou:

Como de costume Vitoria é a última a sair de suas festinhas e naquela noite já passava das 11h30 e nos dirigíamos em direção a saída do estacionamento, um pouco distante de onde estávamos, entretanto o lugar era seguro. Repentinamente do banco traseiro do carro ela foi incisiva: – pai! – oh Filha! – Pai, pare o carro. Insistiu quero descer. – Descer filha? – Sim. – Vamos embora todos já foram. – Não pai, preciso. – Tá bem. Lá vai ela descendo do carro, eu e sua mãe sem saber qual era sua intensão. Eu sai do carro e fiquei do lado de fora debruçado sobre a porta aberta. Sua mãe sentada com a porta de seu lado também aberta e ela se dirigiu para a frente do carro e ali imóvel por segundos com o olhar lançado as alturas pro céu, como se estivesse a contar estrelas.
Não! Jamais Vitoria me perguntou a respeito destes corpos celestiais, apenas desde antes ela sempre nos apontou a lua cheia quando de seu aparecimento no alto céu. Porém nunca dei importância ao fato, afinal quem não olha com admiração para a lua cheia em sua plenitude, independentemente de ser criança ou adulto. Sim! Apenas a ensinei uma canção do cancioneiro popular “Lua Bonita” que ela sempre me chama para cantar quando a lua aparece. Diz assim um trecho da canção: “Lua bonita, Se tu não fosses casada; Eu preparava uma escada; Pra ir no céu te buscar; Se tu colasse teu frio com meu calor; Eu pedia ao nosso senhor; Pra contigo me casar”.

É! Por incrível que pareça também nunca lhe falei das estrelas, mesmo que habitualmente lhe conte histórias para dormir ou até cria-las na falta de repertorio. Não, não nego que gosto das estrelas independente como as pessoas as veem hoje, desmistificadas, esquecidas. Confesso até que tinha esquecido quando as contemplamos no firmamento, estamos olhando para o nosso passado e futuro e assim parafraseando a canção: está escrito nas estrelas, haja vista o desejo do homem desde os primórdios em desvendar os segredos da passagem do tempo.
Vamos em frente, depois de alguns segundos Vitória em sua contemplação, eis que novamente nos surpreendi. Sem que esperássemos foi até o banco traseiro do carro onde estava um balão de ar, que ganhara na festa e o pegou. Ergueu o braço para cima, soltou o barbante que o balão a sua mão o prendia. Nesse momento meus olhos se umedeceram ao ouvir dela, com o olhar fixo no balão a subir solitário na imensidão do céu: “vai! Vai meu balãozinho que um dia vou te encontrar!” Agora, nesse exato instante, meus olhos novamente se umedecem.
Ah! quanta saudade dos meus tempos de menino que costumeiramente passava férias com meus primos na fazenda Santo Antônio – município de Agrestina – e nessas noites quando caminhávamos a pé sob a luz prateada da lua ou quando deitávamos no chão no avarandado da casa grande, de papo pro ar ali ficávamos horas e horas observando o céu, esperando que as estrelas cadentes caíssem em algum lugar, enquanto pedíamos que aquela estrela atendesse nosso pedido.


Em uma dessas ultimas aparição da lua cheia ela pediu para cantarmos juntos a canção da “Lua” e no trecho: “Pra que cassaste com um homem tão sisudo; Que come dorme faz tudo, dentro do seu coração” novamente ela se sai com mais uma – pai, a lua não tem coração!


Ah! Até o momento Vitoria não falou nada daquele instante em que soltou o balão, parece que guardou bem lá no fundo de seu coraçãozinho seu sentimento e eu entendi que não devia lhe tirar do silencio. 

Mas me pergunto: como será o amanhã de Vitoria e de seu irmãozinho Pedro Henrique? Como verão as estrelas? a lua e versos como o da magistral poetisa Chiquinha Gonzaga, a exemplo de sua canção “Lua Branca”: Dá-me o luar de tua compaixão; Oh, vem, por Deus, iluminar meu coração; E quantas vezes lá no céu me aparecias; A brilhar em noite calma e constelada; E em tua luz então me surpreendias; Ajoelhado junto aos pés da minha amada.

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