O back-end do aplicativo “Marginais-Hérois”

julho 14, 2018

Na década de 60–70, mais precisamente entre 1968 e 1970, houve um movimento artístico durante o Tropicalismo, de alguns artistas que estavam fora da circulação artística mainstream da época. Após o exílio de Caetano e Gil (eles foram exilados bem no ano de implantação do AI-5 na Ditadura Militar, em 1969, e só voltariam em 1972), alguns artistas direcionaram suas criações para um caminho mais radical — e porque não, polêmico — para os dilemas culturais e sociais, propondo uma crítica ao conservadorismo da época.
Até que em 12 de Dezembro de 1968, a jornalista e fotógrafa Marisa Alvarez Lima publica na revista O Cruzeiro o artigo “Marginália — arte e cultura na idade da pedrada”. E a partir daí, essa movimentação de artistas ganha nome: Marginália. O nome por si só seria um escândalo para a imprensa, por pensarem que a conotação do nome vem de uma cultura marginal-bandido-criminoso, mas não é isso. Marginal vem no sentido de estar a margem, fora da corrente do mainstream, o que hoje se aproxima muito do que chamaríamos de “arte independente”.
Nesse texto, a jornalista divulga alguns nomes de artistas, e com isso surge até subdivisões como “Cinema Marginal”, a exemplo de “Câncer”, de Glauber Rocha (1968) — Glauber como principal representante da corrente cinematográfica da época que era o “Cinema Novo” — , “A Margem”, de Ozualdo Candeias (1967), “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla (1968). Até nomes como Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, Ferreira Gullar, Lygia Clark, Hélio Oiticica, e muitos outros nomes.
Por falar em Hélio Oiticica, ele foi um dos que melhor sintetizou o movimento da Marginália com o clássico e polêmico cartaz escrito “Seja Marginal, Seja Herói”, exibido a primeira vez no cenário de um show de Caetano, Gil e os Mutantes, na boate Sucata no RJ, em forma de cenário.
Foi justamente nesse show que Caetano e Gil foram levados presos pela ditadura, até hoje sem ninguém saber o real motivo. Ficaram presos sem alarde na mídia até que no ano seguinte foram exilados.

Seja Marginal seja héroi — Hélio Oiticica (1968)
Essa bandeira-cartaz foi em homenagem a um bandido morto injustamente pela polícia em 1964, chamado de Cara de Cavalo. Misturando a pressão político-social da Ditadura (em sua época mais acochada que foi a partir de 1969), com essa movimentação dos artistas fora das grandes circulações, de contestar esses dilemas culturais e sociais, e ainda o fato de Caetano e Gil serem presos justamente nesse show. Essa imagem-bandeira de Oiticica virou símbolo da Marginália, e porque não dizer, da Tropicália também.
O cartaz também foi feito pra levantar a polêmica — referenciando Cara de Cavalo, que teve uma morte, não muito esclarecida digamos assim — “Marginal? ou héroi?”. A partir disso, podemos explodir essa polêmica não só para o tropicalismo (Caetano e Gil, marginais? ou hérois?), mas para todas as figuras de anti-hérois, desde as fábulas como Robin Hood, passando pela cultura pop como Wolverine e Deadpool até figuras como Lampião e Che Guevara.
Já em 2015, o designer Rico Lins remonta essa provocação de Hélio Oiticica aplicado a outro contexto artístico a partir de uma estudo-experimentação com cartazes. “Arte é o laboratório da liberdade” diria Eduardo Kac uma hora dessas, e é justamente a partir dessa liberdade de experimentação que Rico Lins propõe uma exposição de cartazes em formato de lambe-lambe (forma de expressão urbana marginalizada) submetidos propositalmente a uma série aleatória de distorções gráficas, gerando imagens únicas. Essa idéia do erro enquanto proposta estética, tinha a frase “Seja marginal, seja herói” de forma borrada, por cima de imagens de heróis/marginais retirados do próprio imaginário de Lins.
Rico Lins, convidou meu amigo H.D Mabuse (no qual escreveu um texto com a provocação “Quem são seus marginais hérois?”) para transpor para o meio digital a mesma proposta da exposição. Sendo assim, o C.E.S.A.R desenvolveu um aplicativo pra Android e iOS que gera imagens digitais (a partir de fotografias tiradas na hora, ou imagens já definidas) com ruídos digitais aleatórios borrados por cima da imagem. A exposição somada com o aplicativo, dá pano pra manga pra um monte de provocação, desde a interseção entre Arte & Tecnologia até provocações sobre a autoria da obra, como Mabuse fala no texto dele.
Na época, me lembro que eu “brinquei” um bocado com o aplicativo, e assisti um debate dentro do CESAR mediado por Mabuse e Rico Lins sobre o conceito da exposição que foi uma das melhores palestras que já assisti dentro do CESAR. Acho fundamental inclusive como uma possível trilha para inovação, esse casamento de Arte & Tecnologia (ainda mais com um conceito desse tamanho por trás dando suporte).
No Instagram, “criei” na época, uma imagem a partir do aplicativo com uma fotografia de Hélio Oiticica, outra com Gil, Caetano e Rita Lee e por aí vai. E como parte dessa exposição-digital-DIY, a tag #marginaisherois já segue com mais de 200 fotos.
Hélio Oiticica

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