26/01/19

Coisas da Vida - TEM BICHO QUE PARECE PEIXE MAS NÃO É! por Agildo Galdino


Comecemos, perguntando se você conhece algum dito popular? Dê uma olhada em sua caixa de memórias que, por certo, recordará que já ouviu alguém verbalizar, por exemplo, “a pressa é inimiga da perfeição”. Pois é, esse é um famoso dito popular. Como tal, são frases e expressões que estão por ai a nos agraciar pela vida afora relacionados de um modo ou de outro a ensinamentos decorrentes da experiência popular.

Como eles, há também gestos e costumes que se popularizaram. Quem já não fez aquele tal sinalzinho afirmando estar tudo bem, levantando o polegar? Ou então não bateu na mesa ou até mesmo em qualquer superfície sólida três vezes para espantar o azar? Outros têm o costume de cruzar os dedos, “benzer” um doente, “fechar o corpo” contra males, e outras variações. Tudo isso faz parte da cultura popular que é de suma importância na construção da identidade de um povo.

Enfim, como entender nossa intelectualidade sem conhecer nossa própria cultura, vez que pouco computamos crédito aos inquestionáveis saberes populares, às práticas, aos hábitos e aos costumes sociais? Enfim, os mitos, as crenças e as lendas estão presentes no dia a dia, mesmo que não queiramos aceitar esse fato. Isso se dá até mesmo inconscientemente, a exemplo da medicina popular, das religiões, dos ditos populares, das simpatias e por ai vão tantas manifestações de autoria desconhecida e passadas através dos tempos, de geração em geração.

Lembro-me muito bem que em minha primeira excursão científica pela Amazônia, como pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, naquele ano de 1975, fiquei deslumbrado quando pela primeira vez vi certo bicho emergir da água e acompanhar nosso barco numa sequência de movimentos – eram saltos alternados para fora da água e em seguida, mergulhando de volta.

Segundo a lenda corrente entre os habitantes daquela região, trata-se de peixe que vira homem sendo dotado de um charme irresistível para as mulheres. Ao sair do rio, ele se transforma em um rapaz elegante e sedutor, vestido de branco e com um chapéu da mesma cor na cabeça, usado para esconder o grande nariz, já que a transformação de “peixe” para humano não é completa. O chapéu serve para não deixar exposto o nariz que seria percebido à distância.

É na época das festas juninas que ele costuma visitar as comunidades próximas ao rio para encantar e seduzir moças bonitas. À noite, ele aparece, escolhe a sua pretendente e, com mil e um galanteios, a faz caminhar até o rio, onde após fecundá-la, volta a se transformar em boto.

Por isso, entre os ribeirinhos se a mulher engravida e não é casada, é comum ouvir-se dizer que o filho é do boto, atribuindo-se a ele muitos filhos sem paternidade reconhecida. Por outro lado, o nascimento de uma criança de pele clara, muitas vezes era justificado pela ação do boto, devido à coloração rosada do animal que transita pelos rios da Amazônia. Os olhos dele, quando devidamente preparado pelas mãos de uma “entidade”, torna-se amuleto para atrair a pessoa amada e assim se mantêm as manifestações decorrentes do imaginário refletido nos mitos”.

Segundo Kendall (1999), essa lenda pode ter contribuído para que o abate e consumo de botos sejam evitados pelos pescadores, embora possa não ser suficiente para assegurar a preservação deste mamífero ao longo do tempo.

Presidente da Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras

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