18/08/19

Arte e Devoção - Particularidades da eloquência sagrada - por Jénerson Alves*


A palavra falada possui um poder inspirador, capaz de mover multidões. Portanto, é exigido de todo orador que sua palavra seja sólida e agradável. A oratória é uma arma sublime, que pode promover a paz e a fraternidade entre os homens. O didatismo, a inflexão da voz, os objetivos definidos, são elementos essenciais para o cumprimento de tal propósito. Sermões morais ou doutrinários, panegíricos e práticas doutrinárias são alguns dos textos pertencentes à sagrada oratória.

No caso do orador cristão, as características exigidas aos demais oradores devem ser ainda mais superiores. Requer que o predicador seja um estudioso ávido das Sagradas Escrituras, bem como apresente uma conduta proba, com boa reputação entre as pessoas. Os pensamentos precisam estar em consonância com a Bíblia, apresentados com clareza. A dicção deve ser graciosa, com adornos equilibrados. Ademais, a unidade é essencial na formulação de um sermão, assim como em toda composição literária. 

De acordo com Santo Agostinho, o orador sagrado deve propor três coisas: que a verdade seja conhecida, conhecida de uma maneira agradável, e que arraste após si a vontade – “Ut veritas pateat, ut veritas placeat, ut veritas moveat”. O Bispo de Hipona adotava este plano de composição em seus próprios sermões. Acerca deste assunto, sublinha a doutora em Letras Zélia de Almeida Cardoso na obra A Literatura Latina (Martins Fontes, 2013):

“Os ‘Sermões’ de Santo Agostinho, igualmente compilados após a exposição oral, demonstram que o autor possuía conhecimentos de retórica. Embora bastante singelos – e nisto se distanciam bastante das cartas e dos tratados por ele escritos –, mostram que o orador pretendia atingir o grande público mas deixam adivinhar a primorosa formação de quem os pronunciou” (pág. 160).

A pregação sempre foi um aspecto central na fé cristã. As cerimônias dos primeiros cristãos eram baseadas nas palavras doutrinárias do Senhor Jesus. Orações, cantos, leituras e homilias sempre tiveram como base a conservação das palavras do Messias. Este foi o embrião da literatura cristã – primeiramente em grego, a exemplo das epístolas de São Paulo Apóstolo – bem como em latim – a partir da tradução da Bíblia no segundo século e de obras de autores como Victor e Apolonius.

Um predicador cristão precisa ter em mente a teologia, a religião prática, o legado e a história da Igreja como elementos modeladores de sua eloquência. Tudo isso precisa ser aplicado ao contexto do auditório. Caso contrário, seria preparar um manjar para uma plateia sem fome.

 Jénerson Alves - jornalista, professor, assessor parlamentar, poeta e escritor.


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