Recentemente comemoramos uma data importante para o país que é constituído de mais da metade de pessoas negras e é cômico afirmar que este mesmo Brasil que foi formado através de sangue suor e lágrimas do povo negro e de outras nacionalidades, ainda é um país hostil a população negra. O racismo é um sentimento que divide o Brasil sendo um problema antigo mas muitas vezes sutil ou velado, sendo institucionalizado e até levando aos assassinatos.
Apesar de tantos debates, a sociedade brasileira que foi forjada numa perspectiva escravocrata, não perdeu de sua natureza o seu traço opressor. Usado como um mecanismo fundamental de poder, o racismo é utilizado historicamente para separar e dominar classes, raças, povos e etnias. Seu desenvolvimento moderno se deu com a colonização, com o genocídio colonizador.
O racismo é, como disse Foucault, “o meio de introduzir […] um corte entre o que deve viver e o que deve morrer”. “No contínuo biológico da espécie humana, o aparecimento das raças, a distinção das raças, a hierarquia das raças, a qualificação das raças como boas e de outras, ao contrário, como inferiores, tudo isso vai ser uma maneira de fragmentar esse campo do biológico de que o poder se incumbiu; uma maneira de defasar, no interior da população, uns grupos em relação aos outros. […] o racismo faz justamente funcionar, faz atuar essa relação de tipo guerreiro − ‘se você quer viver, é preciso que o outro morra’ − de uma maneira que é inteiramente nova e que, precisamente, é compatível com o exercício do biopoder.”
O dia da consciência negra deve ser lembrado e acima de tudo celebrado, visto que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão, devido a grandes pressões de grupos abolicionistas. E nessa data tão emblemática, vemos deputados defendendo o genocídio de pessoas negras. A violência contra o negro é constantemente noticiada, elevando cada vez mais o índice de jovens afrodescendentes assassinados. 75% das vitimas de assassinatos no país são de pessoas negras, aponta o Atlas da violência.
Pela constituição, o racismo é considerado crime levando a investigações e punições, porém torna-se difícil punir a pessoa que comete tal crime devido a tantos subterfúgios usado por quem pratica, o racismo tem sido acobertado. A impunidade configura outro fator que sustenta o ciclo da violência. Apenas 8% dos homicídios vira de fato um processo judicial. A polícia e o Ministério Público têm sido ineficientes quando se trata de investigação criminal e o Poder Judiciário é moroso.
A sequela da exploração e falta de políticas públicas estão refletidas nos baixos índices de bem-estar da maioria da população composta por pretos e pardos (uma fatia que corresponde a 55,8% dos brasileiros), se comparada à média da população e aos brancos. Cento e trinta e um anos se passaram desde a abolição da escravidão, mas o Brasil não avançou no que diz respeito a democracia em termos raciais. Além das desigualdades sociais, a falta de representatividade em vários âmbitos da sociedade e nos espaços públicos também chama a atenção e fortalece as barreiras raciais.
“Na primeira vez em que estive aqui, em 1987, fiquei chocado ao ver que na TV, em revistas, não havia negros. Melhorou um pouco. Mas há muito a fazer. Quem nunca veio ao Brasil e vê a TV brasileira via satélite vai pensar que todos os brasileiros são loiros de olhos azuis.”
(Spike Lee)
“Aqui em Montgomery, quando os livros de história forem escritos no futuro, alguém terá de dizer: ‘lá viveu uma raça, um povo negro, de cachos macios e tez preta, um povo que teve a coragem moral de lutar pelos seus direitos. E assim eles injetaram nas veias da história e da civilização um novo significado’.
Martin Luther King Jr.
Aline Sales - é pesquisadora nas áreas de Educação e Saúde. Cursou nutrição na FAVIP e licenciatura em letras na Fafica.


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